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HONRARIA Alunos de colégio da PM de Valparaíso (GO) em entrega de medalhas para colegas que se destacaram (Crédito: Sergio Dutti)
HONRARIA Alunos de colégio da PM de Valparaíso (GO) em entrega de medalhas para colegas que se destacaram (Crédito: Sergio Dutti)

Quatro unidades do DF adotam disciplina militar para melhorar desempenho dos alunos e a segurança. O modelo a ser replicado por Bolsonaro, porém, leva a um aumento no número de jovens expulsos.

Perfilados no pátio do Centro Educacional Número 1 da Estrutural, uma das regiões mais pobres do Distrito Federal, meninos e meninas escutam em silêncio a palestra do capitão Igor, da Polícia Militar. Desde o início do mês, o oficial é o vice-diretor disciplinar da escola. A palestra, que acontece todas as manhãs, faz parte de uma nova disciplina incorporada ao currículo dessas crianças, a ordem unida, mesmo nome que batiza o pronunciamento com que os comandantes iniciam o dia de trabalho nos quarteis. “Não vamos tolerar menina de rabo de cavalo nem homem de cabelo grande”, avisava o capitão, com a ênfase comum das ordens que costumam ser dadas aos soldados. Os adolescente, com idades entre 12 e 15 anos, estavam avisados: para o bem e para o mal, um novo tempo instalou-se onde estudam.

Dentro de alguns meses, os alunos trocarão os uniformes escolares da rede pública do DF por fardas semelhantes às dos militares.

O modelo de escola militar, com a parte disciplinar administrada pela PM, foi implantado em quatro escolas de Brasília no início de fevereiro, por determinação do governador o DF, Ibaneis Rocha (MDB). O modelo adotado segue o que acontece em algumas cidades de Goiás, como Valparaíso, no entorno da capital, a cerca de 50 quilômetros. São escolas em áreas violentas e pobres que passam a ser geridas de forma compartilhada por professores e policiais militares. Os primeiros cuidam da parte pedagógica, os PMs, de manter os alunos na linha.

Na Ordem Unida, são ditadas regras de funcionamento da escola e conceitos de cidadania e respeito aos símbolos da pátria, como o hino e a bandeira, que os estudantes devem seguir. Ao contrário do que acontece com outras matérias, como português e matemática, a avaliação não é mensal, mas diária. Qualquer atitude fora das normas é imediatamente advertida. Com algumas diferenças, o modelo que na prática agora existe em Goiás e no DF será replicado em todo o País pelo governo de Jair Bolsonaro. O presidente quer que cada Estado tenha pelo menos uma escola militar modelo.

Desde o dia 11, uma rotina mais rígida passou a fazer parte da realidade dos 6,9 mil estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública do DF. Em Valparaíso, a escola já funciona assim desde o ano passado. O modelo de gestão compartilhada é uma resposta que o governador do DF tenta dar aos altos índices de violência dentro dessas unidades. Alguns critérios foram levados em conta para a escolha: quanto pior os Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) e de educação básica (Ideb), e maiores os números no Mapa da Violência, mais há chances de instalação de uma escola militarizada.

Agora, além de professores em sala de aula, os alunos do CED 1 da Estrutural, uma cidade carente situada a 20 quilômetros do Palácio do Planalto, convivem com o trânsito de policiais fardados pelos corredores e pelo pátio. Rotina totalmente diferente de anos anteriores, quando a circulação muitas vezes era de traficantes e outros delinquentes. Tempo que a diretora, Estela Accioly, presenciou, mas quer esquecer. “Eu já apreendi faca e canivete com aluno em sala de aula”, conta. Diante dessas experiências, Estela festeja a novidade: “Eu acredito que vai melhorar muito a questão da segurança”, espera.

Dentro de alguns meses, os alunos trocarão os uniformes escolares (uma camiseta de malha com a calça que quiser) por fardas. Em um primeiro momento, os meninos usarão camiseta branca com calça jeans e sapato preto. As meninas, saia. Depois, o uniforme será trocado pelas fardas parecidas com as dos militares.

O que o governo do DF não definiu ainda é se o ensino nessas escolas também será o mesmo aplicado nos colégios militares tradicionais. Além da rigidez do uniforme e dos costumes dos alunos, a unidade acadêmica do Exército Brasileiro — o Colégio Militar de Brasília, que é referência no País — possui uma educação de ponta, que se assemelha à de escolas particulares. Mas é preciso que o governo invista mais recursos para isso, pois os colégios militarizados são situados em localidades carentes, com baixa renda familiar, o que dificulta a contrapartida das famílias, diferentemente das escolas militares tradicionais, onde os pais pagam uma taxa pelo estudo de seus filhos. De qualquer modo, as novas escolas já chamam a atenção da população. Irene Costa, 45 anos, foi cedo na terça-feira 12 à Estrutural para tentar uma vaga para a neta Emily Alves, de 12 anos. “Aqui haverá mais segurança e o ensino vai ser bom, porque as escolas militares têm boa fama”, acredita a dona de casa.

Em Goiás, já existem 60 escolas militarizadas semelhantes às que foram implantadas no Distrito Federal. Desde que passou a se chamar Colégio Estadual da Polícia Militar de Goiás Fernando Pessoa, a instituição situada no Céu Azul, região mais pobre de Valparaíso, viu diminuir seus índices de violência. “Um ex-aluno foi assassinado aqui dentro antes de os militares chegarem”, lembra a coordenadora pedagógica, Sônia Rodrigues. A taxa de evasão escolar também zerou. Há um dado, porém: a escola livra-se de seus alunos-problema. A expulsão de estudantes cresceu. E as expulsões estão ligadas ao método de avaliação diária da disciplina. “Caso o aluno cometa transgressão até chegar ao conceito insuficiente, o conselho disciplinar decide se ele fica ou não”, afirma o diretor-comandante, Eric Chiericato.

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No DF, o governador Ibaneis planeja criar 40 escolas militarizadas. Catarina de Almeida Santos, professora de Educação da Universidade de Brasília (UnB), diz que as expulsões acaba servindo para selecionar alunos, mascarando o problema. “No decorrer do tempo, essas escolas do DF vão começar a selecionar quem entra também. Cria-se, assim, um falso modelo de qualidade. O que acontece com a continuação da educação desses meninos expulsos? Corre-se o risco de, no extremo,você ter uma escola modelo em determinada região na qual as crianças que vivem ali não vão conseguir estudar”, avalia a especialista. Ela ainda ressalta: “A polícia que está dando segurança dentro da escola é a mesma polícia que não consegue conter a violência na região”. Diretor do Sindicato dos Professores do DF, Cláudio Antunes critica: “Estão transformando nossas escolas em presídios”.

Alheio à discussão mais técnica sobre os modelos pedagógicos, a aluna do oitavo ano da escola na Estrutural, Maria Paulo, de 13 anos, reclama da Ordem Unida do capitão Igor. “Cortar as unhas, prender o cabelo? O que tem de errado com minhas unhas e meu cabelo?”, protesta.

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