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Política

O problema é que uma eleição não se disputa nas máquinas calculadoras, mas neste aparelho muito mais sensível à sensibilidade humanas que é a urna eletrônica.
O problema é que uma eleição não se disputa nas máquinas calculadoras, mas neste aparelho muito mais sensível à sensibilidade humanas que é a urna eletrônica.

Na simples matemática, não é difícil demonstrar que a neutralidade negociada com o PSB irá beneficiar a candidatura Lula -- ou seu sucessor designado -- na campanha presidencial. Mesmo excluindo anti-petistas irredutíveis, como em São Paulo, no Distrito Federal, o acordo libera a maioria dos governadores do PSB para cumprir sua vocação natural de apoiar Lula, permitindo imaginar  que a soma dos votos pode levar sua candidatura a um patamar mais elevado do que perdas possíveis em função do sacrifício de Marília Arraes.

 

A ausência de um adversário do PSB na disputa pelo governo de Minas Gerais abre um bom caminho para uma reeleição difícil de Fernando Pimentel e sem dúvida facilita a coleta de votos pela caravana do PT no segundo colégio eleitoral do país. Tudo certo, então? Longe disso.

O problema é que uma eleição não se disputa nas máquinas calculadoras, mas neste aparelho muito mais sensível à sensibilidade humanas que é a urna eletrônica. Aqui moram a salvação e o risco. Estamos falando do eleitor e do militante.

Numa eleição na qual é preciso considerar seriamente a hipótese de Lula ser impedido de disputar, o papel do militante me parece mais importante do que nunca.

Ao contrário da maioria das legendas, que funcionam como máquinas profissionalizadas, o Partido dos Trabalhadores possui uma militância que tem sido capaz de desempenhar um papel decisivo nas disputas apertadas, aquelas que se resolvem no bate-boca na saída do serviço e nas conversas de família, nas mobilizações aguerridas na véspera da votação.

Não há dúvida, por exemplo, que a vitória de Dilma Rousseff em 2014 só foi possível porque a militância arregaçou as mangas nos últimos dias e foi a luta contra a máquina profissional judiciário-mídia que havia armado uma operação de guerra. Não há dúvida, também, sobre outro comportamento. Quando sentiu-se abandonada e decepcionada pelas medidas recessivas e impopulares anunciadas logo após uma vitória que via como sua, essa mesma massa deu as costas para o governo que havia ajudado a eleger, permanecendo de braços cruzados durante o impeachment.

Compreende-se por que a militância  fique desconfiada de acordos que não entende nem são explicados. Não quer ser usada como massa de manobra, como se fosse formada por robôs de carne e osso. Por isso se recusa votar de olhos fechados, naqueles nomes que os dirigentes definiram entre quatro paredes. Exige respeito pela história que ajudou a escrever e pede respostas a altura de um esforço  que ajudou a sustentar quatro vitórias eleitorais consecutivas. Não aceita decisões no piloto automático.

Foi por isso que, no ano passado, ao aparecer em palanques da caravana de Lula pelo Nordeste, Renan Calheiros não escapou das vaias, que geravam desconforto e desgaste.

Imaginar uma cena semelhante na campanha presidencial mais delicada numa história de tantos traumas, quando é impossível saber sequer se Lula estará em liberdade,  equivale a produzir uma tragédia programada, capaz de alimentar desgastes sem fim, internos e externos.   

A experiência política elementar ensina que o interesse nacional -- o retorno à presidência -- tem prioridade sobre as questões estaduais. O futuro do país depende disso, pois não se pode imaginar que seria possível desmontar as armadilhas e retrocessos promovidos por Temer-Meirelles por uma insólita intervenção de governos estaduais, por mais combativos que sejam.

A compreensão de que o PT não pode se comportar como uma federação de vontades estaduais, pode ser dolorosa, mas foi confirmada pelas quatro vitórias eleitorais consecutivas de Lula-Dilma, onde não faltaram disputas e conflitos comparáveis ao que se assiste hoje. Essa constatação não elimina, é certo, a discussão de graves lições do passado. 

Em 1998, escolhido pelo encontro estadual do Rio de Janeiro, o veterano Vladimir Palmeira foi sacrificado numa troca com o PDT, que permitiu colocar Leonel Brizola como vice na chapa de Lula, levando o PT a fazer campanha por Garotinho. Ainda que se possa reconhecer que o acordo com Brizola marcava um pacto memorável, de valor histórico, o efeito foi duas vezes nulo. Pouco ajudou na eleição federal, na qual Lula foi batido no primeiro turno. Também abriu um poço de ressentimentos e disputas no Rio de Janeiro, do qual o partido não se recuperou até hoje -- e que ajuda a explicar o desempenho acima da média do PSOL no Estado. No Maranhão, o pacto de convivência pacífica com a oligarquia Sarney funcionou como um veneno permanente, que atingiu o ponto da humilhação total quando o patrono da família foi gravado dando seu voto em Aécio Neves em 2014.

Nestes dois casos, o saldo foi terrível, no plano local. Mas seria absurdo negar que, entre perdas e danos, muitas vezes injustos e ao mesmo tempo inevitáveis, revelou-se um acerto no plano geral -- a conquista e preservação da presidência, permitindo a execução de programas de governo cujos méritos inegáveis, do ponto de vista da maioria dos brasileiros, não precisam ser recordados aqui.

Sabemos que o PT vive um ambiente positivo, de 2017 para cá, fortalecido pela resistência ao golpe, pela recuperação da memória popular sobre os anos Lula. De um ano para cá, o partido reassumiu a posição de mais popular legenda do país, trunfo precioso quando se cogita a possibilidade de uma campanha com Lula na prisão. As caravanas pelas várias regiões do país mostraram uma força popular única, permitindo a recuperação de uma militância que se afastara -- e ainda não retornou plenamente, como ficou claro em São Bernardo, na solidariedade a Lula antes de sua prisão.

Esse papel da militância ganha importância redobrada, é evidente, diante da hipótese de Lula ser impedido de concorrer. O trabalho pessoal de convencimento e discussão assume outra relevância.

Estrategista e comandante da campanha, a partir de agora Lula terá a missão de apontar suas razões à base do partido, num indispensável chamado a luta num dos momentos mais graves em 500 anos de nossa história.

Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA.

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