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Trump anunciou acordo para normalizar de relações entre Israel e Emirados Árabes em 13 de agosto (Foto: Reprodução)
Trump anunciou acordo para normalizar de relações entre Israel e Emirados Árabes em 13 de agosto (Foto: Reprodução)

Poucos poderiam ter previsto isso há quatro anos.

Ao presidir, nesta terça-feira (15/09), a cerimônia de assinatura dos acordos que normalizam as relações entre Israel e dois países árabes, o presidente dos EUA, Donald Trump, obterá uma significativa conquista diplomática, embora muito distante da meta original, de pacificar o conflito israelo-palestino.

 

 

Os defensores do acordo dizem que ele traz uma oportunidade para se fazer avançar o processo de paz na região. Segundo seus termos, Israel vai por um freio à anexação de territórios palestinos ocupados que chegou a ser anunciada pelo primeiro-ministro do país, Benjamin Netanyahu. Em troca, os Emirados Árabes e o Bahrein vão normalizar suas relações com Israel.

Em contrapartida, os críticos destacam que em troca de pouco, ou quase nada — que foi o recuo no plano de anexação que havia feito diante de críticas de todo o mundo —, Israel conseguiu normalizar sua relação com dois países que, como a maioria das nações árabes, se negava a reconhecer o Estado israelense, acusando o de ocupação ilegal em terras palestinas.

De qualquer modo, o acordo é um marco histórico, e Trump — que intermediou a relação — se apresenta como artífice deste sucesso a poucas semanas das eleições americanas, na qual enfrenta o candidato democrata Joe Biden.

Alinhado com Israel

Pouco depois de eleito, Trump nomeou seu genro, Jared Kushner, como enviado especial para o Oriente Médio, encarregado de negociar a paz entre israelenses e palestinos.

Nem Trump nem Kushner, que é judeu ortodoxo, esconderam seus alinhamentos com Israel. Por isso, Bessma Momami, especialista em Oriente Médio da Universidade de Waterloo, no Canadá, acredita que o real objetivo era agradar ao chamado "lobby judeu", que costuma fazer grandes doações para campanhas políticas do Partido Republicano.

Nesta linha, em dezembro de 2017, Trump fez um anúncio surpreendente que sacudiu o mundo árabe. Ele comunicou que os Estados Unidos mudariam sua embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, cidade que ele reconheceu como legítima capital de Israel.

O status da histórica cidade, que é sagrada para judeus e muçulmanos, é um dos maiores pontos de atrito entre israelenses e palestinos.

Ao reconhecer a reivindicação israelense, Trump provocou indignação entre palestinos e rompeu a política mantida por décadas por governos anteriores e pela comunidade internacional.

E algo semelhante aconteceu agora, com os palestinos novamente indignados com este acordo de Israel com Emirados Árabes e Bahrein, que muitos chamaram de "golpe mortal" na solidariedade árabe, segundo o primeiro-ministro palestino, Mohamed Shtayeh.

O chefe do governo da Autoridade Nacional Palestina (ANP) também disse que o acordo foi um "golpe de misericórdia" na iniciativa de paz de 2002 no mundo árabe, que estabelecia que não haveria reconhecimento de Israel entre Estados árabes até o fim da ocupação israelense ou criação de um Estado palestino.

A grande incógnita é o que fará a Arábia Saudita, a grande potência regional. O governo de Riad já fez uma sinalização sobre sua posição ao permitir voos entre Israel e Emirados Árabes que cruzem seu espaço aéreo.

David Makovsky, especialista do Instituto de Washington para Política no Oriente Médio, acredita que há mudanças internas no mundo árabe que explicam esses novos tempos na região.

"Ao contrário do que acontecia há 20 anos, os países árabes têm algo a ganhar ao estabelecer relações com Israel, sobretudo devido ao papel desempenhado agora pelo Irã", país persa que é rival tanto de Israel como dos países vizinhos.

Como revelou o resultado da votação da Liga Árabe que condenou os acordos, a solidariedade automática dos países árabes com os palestinos já não pode ser vista como algo garantido.

Segundo Momani, "a maioria dos governos árabes, especialmente entre os países do Golfo Pérsico, se tornaram nacionalistas e primam pelo interesse de seus próprios países, de tal forma que a causa palestina não é tão importante para a psicologia coletiva neles como era no passado".

As armas, prioridade para Trump

Muitos analistas se perguntam o que pode ter levado os Emirados Árabes e o Bahrein a dar um passo tão grande agora.

Uma chave para responder isso pode estar no acesso ao mercado de armas dos Estados Unidos, em particular os caças F-35, que até agora Washington não vendia para rivais regionais de Israel.

Kushner disse em agosto, em entrevista para a CNN, que o acordo de Israel "deve incrementar as probabilidades" de que os Emirados Árabes possam adquirir os F-35, destacando que o maior interessado em impedir isso é o Irã.

Por sua parte, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, confirmou que seu governo estuda a possibilidade de vender esse tipo de avião para os Emirados Árabes, mas ressaltou que, após se reunir com Netanyahu, o país segue comprometido com a política de manter Israel como potência militar superior na região.

Momani afirma que "Trump deixou claro que só vê o Oriente Médio do ponto de vista de quantas armas os árabes vão comprar dos americanos".

O presidente tem dado algumas declarações estimulando a assinatura de contratos de armas com países que são criticados por suas abordagens de direitos humanos e liberdades civis.

Quando o jornalista Jamal Kashoggi foi assassinado no consulado saudita em Istambul, em 2018, provocando um escândalo internacional, muitos acusaram Trump de reagir com indiferença ao governo do príncipe Mohamed Bin Salman, da Arábia Saudita, um dos compradores regulares de tecnologia militar americana.

"Não é novidade que os Estados Unidos apoiam e vendem armas para ditadores e homens fortes da região; a diferença é que com Trump isso é feito abertamente", diz Momani.

Tempos difíceis para o Irã

Desde o início de seu mandato, Trump decidiu encerrar a era de relaxamento nas difíceis relações com o Irã, iniciada por seu antecessor, Barack Obama.

Também nisso Trump se alinhou ao pensamento israelense.

Ele retirou os Estados Unidos do acordo nuclear, que oferecia a Teerã a suspensão das sanções internacionais em troca de aceitar a supervisão internacional de seu programa de energia atômica, e ordenou o ataque em Bagdá que matou o general Qasem Soleimani, um homem-chave no Irã. Isso provocou uma escalada perigosa entre os dois países.

A volta das sanções americanas, sob Trump, agravou as dificuldades econômicas do Irã, embora Momani acredite que o problema já vinha de antes.

"O Irã está sofrendo, mas nem tudo é obra de Trump. A assinatura do acordo nuclear não havia melhorado a economia na magnitude em que os iranianos imaginavam", diz ele.

Makovsky lembra que, apesar dos contratempos sofridos recentemente, "Teerã continua tendo uma grande influência na região".

As "guerras sem fim" do Iraque e Afeganistão

Além da promessa de construir um muro na fronteira com o México, acabar com as "guerras sem fim" foi outra das plataformas da política externa de Trump na campanha eleitoral de 2016.

Em 9 de setembro, o Pentágono anunciou a retirada de 2,2 mil soldados no Iraque, o que reduziria seu contingente em mais de um terço naquele país - onde os americanos estão presentes desde a invasão de 2003, sob o comando do então presidente George W. Bush, no esforço para derrubar Saddam Hussein.

No Afeganistão, onde iniciou uma intervenção em larga escala após os ataques que em 11 de setembro de 2001 derrubaram as Torres Gêmeas em Nova York, os Estados Unidos chegaram a um acordo com a insurgência do Talebã para retirar suas tropas antes de maio de 2021.

O governo afegão está agora negociando no Catar com o Talebã, contra quem luta ao lado dos Estados Unidos há anos, mas os insurgentes não aceitaram decretar uma trégua, e o país continua sofrendo ataques.

O governo Trump não condicionou a retirada no ano que vem ao fechamento de um acordo final de paz, o que faz muitos analistas temerem que a situação se deteriorará no futuro.

Makovsky ressalta, em entrevista para a BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC), que "trazer as tropas de volta é uma ideia popular, mas Trump não vai retirar todas, apenas algumas aqui e ali para dar a impressão de que se trata de uma grande tendência".

Momani acredita que o Pentágono está resistindo à retirada tanto no Iraque quanto no nordeste da Síria.

Mudança de política na Síria

O governo Trump parece ter desistido das tentativas de Obama de conter o presidente sírio, Bashar al-Assad.

Com o apoio da Rússia de Vladimir Putin, Assad alcançou superioridade militar na guerra civil que assola seu país desde 2011, sem que os Estados Unidos reagissem.

Mas Trump realizou ações seletivas de impacto na Síria.

Em abril de 2018, ele ordenou o bombardeio de instalações militares em resposta a alegações de que as forças de Assad haviam realizado um ataque com armas químicas contra alvos civis.

E em 2019 ele autorizou a operação das forças especiais que matou Abu Bakr Al Baghdadi, o líder do autointitulado Estado Islâmico.

O combate a essa milícia parece ter sido a prioridade de seu governo na Síria e os responsáveis por sua campanha não hesitaram em apresentar a redução da ameaça jihadista como uma das conquistas do presidente.

Derrubar Assad ficou em segundo plano. E, diz Momani, "Trump não está interessado em assuntos globais, porque ele tem uma perspectiva focada exclusivamente nos Estados Unidos''.

Seu problema ao chegar à próxima eleição é que os eleitores também tenham essa mesma perspectiva.

Segundo Makovsky, "todos os presidentes tentam apresentar grandes conquistas visando a reeleição, mas os acordos entre Israel e os países árabes não serão decisivos enquanto as atenções do país estiverem voltadas para a pandemia e seus efeitos econômicos".

Veja também:

As profecias bíblicas e o acordo de paz entre Israel e Emirados Árabes Unidos

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