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As sobrecargas profissionais estão soterrando nossos limites, nos levando ao colapso total, também conhecida como síndrome de burnout (Casa Grida com ilustração de Morgana Miranda)
As sobrecargas profissionais estão soterrando nossos limites, nos levando ao colapso total, também conhecida como síndrome de burnout (Casa Grida com ilustração de Morgana Miranda)

Rotina exaustiva causada pelo trabalho e autocobrança estão levando pessoas ao curto-circuito do corpo e da mente

Se imagine um palito de fósforo novo. Trabalho, acúmulo de função, prazos curtos, metas, plantões, reuniões, cobranças e reconhecimento profissional. Tudo isso vai passando como uma avalanche na sua vida, enquanto sua cabeça vai suavemente deslizando na lixa da caixinha de fósforo, até que a primeira fagulha acende, sua cabeça queima e entra em curto-circuito. Você queima como um palitinho de madeira e nada mais funciona. As sobrecargas profissionais estão soterrando nossos limites, nos levando ao colapso total, também conhecida como síndrome de burnout.  Você pode até não saber o que é, mas é uma possível vítima dela.

Curiosamente, o termo burnout significa, na tradução livre, queimar por inteiro. Na década de 70, esta síndrome era atribuída exclusivamente para profissionais de saúde, que se sobrecarregavam nos plantões e atendimentos médicos. Contudo, devido a nossa rotina moderna, escassez de emprego e a autocobrança pelo sucesso profissional, o leque se expandiu para qualquer trabalho. É uma exaustão emocional após o ritmo frenético na rotina profissional.

“É como se o trabalho se tornasse um peso para a pessoa. Aí ela começa a desenvolver um ‘ranço’ ou sofrimento para exercer a profissão”, explica o psiquiatra Francisco Medauar, especialista no assunto. “Se percebe a queda de produtividade, com prejuízos de memória e concentração. O paciente com síndrome de burnout fica mais irritado, tem oscilações mais frequentes de humor, chegando a ter crises de choro e ‘explosões’ em quadros mais graves”, diz.

Na última semana, uma das mais conhecidas apresentadoras do estado revelou, nas suas redes sociais, que chegou ao seu limite e precisava recarregar. Jessica Senra, 38 anos, apresentadora da TV Bahia que chegou à bancada do Jornal Nacional, tornou o assunto ainda mais em evidência ao dizer que está com burnout e precisou se afastar do trabalho. Ela disse que retornaria na última segunda-feira (28) para o Bahia Meio-Dia, mas precisou adiar o retorno.

“Apesar da minha expectativa, ainda não retorno hoje à TV. As médicas que me acompanham avaliaram que preciso ficar mais um tempinho afastada. Mas está tudo caminhando bem”, escreveu, nas suas redes sociais. Todos nós a queremos de volta, mas não é tão simples assim. A recuperação não é de um dia para o outro.

Empresária de sucesso e uma referência na produção de eventos na Bahia, a baiana Ju Ferraz, 39, é um exemplo de sucesso profissional. Ela se sentia uma Mulher Maravilha, pois cuidava da casa, dos filhos e da profissão com maestria. Não sabia dizer não, aceitava todos os desafios profissionais, até que um dia entrou em curto-circuito e acabou diagnosticada com burnout, síndrome até então pouco conhecida. Foi preciso um ano e meio para conseguir, enfim, se recuperar do mal.

“Eu tive há três anos. Fui parar no hospital com sintomas de infarto, formigamento no peito e muita falta de ar. Era físico. Tinha certeza que estava enfartando, mas era esgotamento físico e mental”, relembra  Ju Ferraz. “Foi um longo período entre diagnóstico e recuperação. Hoje vejo gente dizendo que teve burnout e pouco tempo depois fala que se recuperou. Não é assim. Eu levei um ano e meio para me recompor. É profundo, pois não envolve apenas a mente. Para se recuperar, é preciso mudar toda uma estrutura na sua vida pessoal e profissional. Até hoje a síndrome está em mim. É apenas uma ferida que cicatrizou”, conta Ju.

Influenciadora digital com mais de 100 mil seguidores no Instagram, Ju Ferraz faz questão de falar sobre o assunto nas suas redes, atribuindo a síndrome como uma doença silenciosa. Apesar de recuperada, Ju assegura que é preciso um cuidado constante para não entrar novamente no ciclo que leva a uma nova crise.

“Quando digo que o burnout é uma cicatriz, é justamente para ficar sempre atenta ao processo. Eu preciso tomar cuidado para não repetir padrões que levam novamente a síndrome”, avisa. Para isto, foi preciso se readequar. “A primeira coisa é aceitar seus limites. O burnout faz isso conosco. Eu tinha certeza que era a Mulher Maravilha. Eu dava conta de tudo, fazia tudo, não tirava férias, nada de folga. Precisei aprender a dizer ‘não’ pelo bem da minha saúde. Quando saio do trabalho, desligo celular, não vejo e-mail, nada. É preciso desligar e recarregar as energias”.

Tratamento

Quando a doença estoura, é impossível se tratar por conta própria. É preciso procurar ajuda de profissionais de saúde, principalmente de um psiquiatra, que vai diagnosticar a síndrome. O tratamento é feito por medicamentos controlados, além de  muita, muita terapia. “O tratamento normalmente é com antidepressivos e ansiolíticos. Os antidepressivos tratam e os ansiolíticos vão aliviar os sintomas até que os antidepressivos façam efeito. Além disso, a gente fala na psicoterapia e nas práticas integrativas e complementares, que são meios mais naturais, não-medicamentosos para o paciente se sentir melhor. Quem decide o momento do retorno é o profissional que assiste o paciente”, explica Francisco Medauar.

Uma pesquisa realizada em 2019, pela International Stress Management Association (Isma-BR), apontou que 72% dos brasileiros sofrem algum tipo de stress, sendo 32% diagnosticados com burnout. Somente em 2019, 20 mil pessoas pediram afastamento do trabalho por conta de doenças  mentais. Isso antes da pandemia. O número pode ser bem maior, pois nem todos conhecem a doença. O CORREIO tentou conversar com motoboys que trabalham em aplicativos de entrega. Quando abordamos sobre o tema, a turma riu do repórter, como se o assunto fosse muito distante de sua realidade. “Bur o quê? Rapaz, não sei o que é isso não”, disse um dos profissionais.

Depois de algumas explicações, o papo fluiu. “É isso? Rapaz, não tem como parar por causa disso. Não podemos ter estas doenças de rico, velho. Precisamos levar comida pra casa, né? Mas teve um aqui que ficou doido mesmo. Ele estava sem dormir, trabalhava mais de 12 horas, dava um pau da zorra. Passou mal e se picou. Nunca mais apareceu por aqui”, disse o motoboy, que não se identificou. É uma doença grave e não escolhe classe social. Para quem não tem condições para pagar um tratamento, tem outros meios gratuitos de se tratar. O Estado disponibiliza Centros de Atenção Psicossociais (Caps) para tratamentos mentais. São 263 unidades pela Bahia, sendo 19 somente em Salvador. Procurar estes centros são importantíssimos, principalmente para afastamento no trabalho. Mesmo pouca conhecida, a síndrome de burnout é considerada uma doença ocupacional pelo Ministério do Trabalho e tem amparo jurídico.

“A síndrome de burnout é uma exaustão causada pelo excesso de trabalho. Assim, os trabalhadores acometidos com essa doença têm todos os direitos laborais e previdenciários garantidos por lei, tais como afastamento com auxílio doença para tratamento e, caso seja diagnosticado a incapacidade total e permanente para o trabalho, terá direito, até mesmo, a aposentadoria por invalidez, como também reparação e indenização por danos morais e materiais”, avisa  Fátima Wermelinger, mestre em Direito do Trabalho e professora da Unesulbahia.

O problema é que nem sempre a empresa reconhece que a síndrome foi ocasionada pelo sangue e suor do seu funcionário. “É muito difícil falar sobre o assunto, principalmente quando existe uma carga de decepção. Fui diagnosticada com burnout depois de anos de dedicação total. Precisei ser afastada e com seis meses de tratamento fui demitida... É difícil ver seu esforço ao extremo se transformar em doença e a empresa simplesmente te demitir. Valeu me sacrificar tanto no trabalho?”, lembra uma profissional da comunicação, que vamos preservar o nome.

Até chegar na doença, ela inclusive não aceitava o diagnóstico e precisou que a psiquiatra fosse taxativa. “Não queria ser afastada, não tinha a dimensão do perigo. Eu disse que não podia deixar o trabalho. Até que a psiquiatra foi categórica e disse que eu estava correndo risco e iria me afastar do trabalho. Eu estava perto de ter um infarto por causa da síndrome. Só então levei a sério”, completa.

Para Renato Ribeiro, Coordenador do curso de Gestão de RH da Rede UniFTC, a empresa precisa saber o limite dos seus funcionários, além de promover “remédios preventivos” para diminuir os riscos.

“Uma empresa precisa saber o que acontece internamente. É preciso promover rodas de conversa, entender que seu funcionário não é máquina. É preciso respeitar o espaço e as limitações do colaborador. Com o home office, a situação está ainda mais grave e creio que possa piorar o número de pessoas com esta síndrome. O líder se acha no direito de ligar toda hora para seu funcionário, pelo simples fato da pessoa estar trabalhando em casa. Há uma sensação que trabalhar de casa dá menos trabalho. É o contrário”, explica.

Chegamos onde queríamos. Medo de contrair a covid-19, perda de parentes, trabalho em home office e mais de 14 milhões de desempregados no país, entrelaçado com o medo de perder o emprego são fortes gatilhos para a explosão de casos da síndrome burnout. Uma pesquisa divulgada no final de 2020 pela Microsoft apontou que 44% dos brasileiros ouvidos mostraram sintomas da doença durante a pandemia, o maior entre oito países pesquisados.

Os campeões de queixas são os profissionais de saúde, seguidos de policiais, bancários e jornalistas. Contudo, o que mais preocupa é outra constatação. Mulheres sofrem muito mais desta doença que os homens. “A mulher naturalmente tem um acúmulo de funções não apenas no trabalho. A síndrome é um esgotamento devido ao trabalho, mas outras coisas ajudam neste processo. É como um copo transbordando de água. O homem trabalha, mas a maioria não tem afazeres domésticos. Não assumem isto”, disse a psiquiatra Patrícia Portella, especialista no assunto.

A melhor forma de evitar ser fisgado pela síndrome de burnout é mudar sua rotina e saber que você não tem superpoderes para abraçar o mundo. Saber seus limites é o primeiro passo para a saúde mental. “Na vida pessoal, vivemos no mundo de aparências, com muita superficialidade nas redes sociais. O mundo das redes sociais não condiz com nossa realidade atual de muita pressão. Isso ajuda também na frustração. No trabalho, pensamos apenas em metas, metas, metas e metas. Se você atinge uma meta, é preciso dobrar. O modelo antigo de gestão precisa mudar, pois o mundo está mudando. Não somos máquinas e temos nossos limites naturais. Ninguém é perfeito”, completa Patrícia.
As 12 fases da síndrome de burnout

Fase 1 - O profissional quer mostrar seu valor de forma perfeita e sem erros. É o reconhecimento a todo custo.

Fase 2 - Mistura vida pessoal e profissional. Abandona um momento de lazer para resolver problemas no trabalho.  

Fase 3 - Sem tempo, irmão! Come mal, não pratica atividade física, tampouco descansa. Se dedica exclusivamente ao trabalho.

Fase 4 - Começa a fugir de conflitos, se sente ameaçado, passa a ficar mais nervoso e com alteração no ânimo.

Fase 5 - Só vive para o trabalho. Inexistência de vida pessoal. Convivências social e familiar comprometidas.

Fase 6 - Entra em conflito com colegas de trabalho. Começa a criticar a equipe e passa a ser mais agressivo e irônico.

Fase 7 - Trabalha de forma automática, como um robô. Esta fase entra um consumo maior de álcool e outras drogas.

Fase 8 - “Fulano tá outra pessoa, tá estranha”. É a fase em que suas atitudes mudam radicalmente e pessoas ao seu redor começam a perceber isso.

Fase 9 - Não consegue mais enxergar seu valor, tampouco do próximo. Começa a perder o rumo de tarefas antes simples.

Fase 10 - A pessoa sente um vazio interior. Hora da compulsão por comida, drogas, entre outros vícios. A perda de interesse no trabalho é nítida.

Fase 11 -   Depressão à vista. Exaustão, incertezas e uma lacuna sobre seu futuro.

Síndrome de burnout - O profissional entra em colapso mental e físico. O trabalhador perde totalmente o sentido de sua relação com o trabalho. Existem casos de infarto e até AVC. É preciso acompanhamento médico, com urgência.
Evite a síndrome!

Limites -  Não assuma tarefas profissionais que você não vai conseguir cumprir. Acumular função pode te levar a exaustão.

Saúde -  Se alimente bem, durma o necessário e pratique atividades físicas.

Diálogo -  Você não precisa ser uma máquina. Negocie prazos de entrega e separe as prioridades com seu chefe. Trabalhe com clareza e saiba dizer “não”.

Planejamento -  Organize suas tarefas diárias, planejando tudo com antecedência. Sair do controle na rotina do trabalho é um perigo.

Equipe -  Não queira abraçar o mundo. Distribua bem as funções e não tenha vergonha de pedir ajuda aos colegas.

Perfeccionismo -  Ninguém é perfeito. Seja competente, mas não se martirize com erros ou equívocos que podem acontecer em qualquer profissão.

Ânimo -  Falta de reconhecimento, assédio moral dos superiores e um ambiente tóxico são nocivos para sua saúde mental. É difícil, mas saiba quando está na hora de cair fora.

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