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Entrevista

'A mulher branca, negra, seja ela crente ou do Candomblé. Ela não deve nunca se bastar. Ela tem que estudar, correr atrás', frisa Mafuane (Foto: CFF/Romero Mateus)
'A mulher branca, negra, seja ela crente ou do Candomblé. Ela não deve nunca se bastar. Ela tem que estudar, correr atrás', frisa Mafuane (Foto: CFF/Romero Mateus)

Cultura, religião, política e movimentos sociais são temas abordados pela graduanda em Comunicação e filha de santo que tem relação íntima com a música desde o berço, cujo pai é cantor compositor do renomado bloco afro baiano, Cortejo Afro. Em um bate papo rápido, a simpática Mafuane sintetizou como chegou, caminhou e por que permaneceu em Camaçari.

Camaçari Fatos e Fotos: Quanto tempo vive em Camaçari e por que chegou a esta cidade?

Tenho aqui, 14 anos. Cheguei aqui em 2000. Vim morar depois de um convite de minha avó. Como estava com meus 19, 20 anos e em Salvador só tinha vagas pra trabalhar na área de comércio, eu vim pra cá, porque aqui tinha mais oportunidades de trabalho. Desde que eu nasci já iniciei o meu relacionamento com o Candomblé.  Sou neta de uma ialorixá que vive em Camaçari há mais de quarenta anos; mãe Carmem, daqui do Jardim Limoeiro, do Terreiro Tombelazaze. Geralmente quem tem alguém na família, mas cedo ou mais tarde, segue este caminho e foi assim comigo. Eu não tenho cargo específico. Sou filha de santo como todas as outras.

CFF: Como foi a busca por emprego assim que chegou?

Logo quando eu cheguei trabalhei no comércio, mas logo depois tive a oportunidade de trabalhar na empresa Britânia, como auxiliar de produção. Sempre fui envolvida com movimentos sociais. Em Salvador, minha família de músicos e as pessoas sempre foram envolvidas com movimento negro, como Olodum, Ilê Ayê; meu pai é compositor (Valmir Brito), no momento ele canta no cortejo afro. Quando eu cheguei em Camaçari e fui trabalhar na área industrial, conheci algumas pessoas como Marcelo Mutakani, que hoje trabalho no mandato do vereador Marcelino, com Cida Black também.  Eles naquela época tinham uma banda chamada Zimbabue. Trabalhando na área industrial, também como ativista do movimento eu me encontrei.

CFF: Em qual momento você fortaleceu mais sua relação política a favor da comunidade negra?

Além do trabalho desenvolvido aqui no terreiro, há pouco mais de um ano, eu trabalhei na Prefeitura, na Coordenação da Promoção da Igualdade Racial (Copir), na Secretaria de Cidadania e Inclusão (Secin). Lá passaram como coordenadores, Lucas Neto, Ives Pires e o último agora está sendo João Borges. Aí eu tive que sair, para cumprir meu resguardo religioso no terreiro, e devo ficar afastada até o meio do ano.

CFF: Quais mudanças mais significativas você observou em Camaçari?

Como desde quando cheguei aqui em Camaçari, morei no Limoeiro. Posso dizer que quando vim morar no bairro, não havia asfalto, não tinha tantas casas e nem tantos moradores. Antes até de vir morar aqui, na minha infância, lembro que tinha rios aqui no Limoeiro. A terra era bem branquinha, muito árvore e muita mata fechada. Em um curto espaço de temos vimos essa mudança.  Outra alteração é que tínhamos que sair do Limoeiro andando para pegar ônibus na rodoviária. Mas quando eu vim morar aqui, já podíamos pegar o ônibus no Hospital Geral de Camaçari. E hoje, o coletivo passa praticamente na porta de casa. Negativamente, veio o tráfico de drogas. Antes podíamos dormir de porta aberta, já hoje, nem pensar.

CFF: A vizinhança do Jardim Limoeiro é tolerante ou intolerante ao Terreiro Tombelazaze?

O Terreiro tem mais de quarenta anos. Antes era bem mais tranqüilo, no sentido de que o terreiro podia ajudar mais a comunidade. Minha avó tinha uma escolinha dentro do terreiro. Aqui em Camaçari tinha um projeto da Vaca Mecânica que dava o pão e o leite e as pessoas vinham pegar aqui, pois nós distribuíamos, independente da religião. Quando acabou isso, ficou mais difícil manter esse auxílio às pessoas, pois funcionamos com o apoio dos filhos de santo. Em 2000, funcionavam aulas de capoeira e os mestres que ensinavam eram filhos de santo da casa. Neste período houve um problema de intolerância, pois quando foi fundada a primeira associação do bairro Jardim Limoeiro, inclusive minha avó era a presidente. Como ela não teve mais condições de estar à frente [atualmente] tem 89 anos, passou a associação para outras pessoas, mas essas pessoas eram evangélicas e criaram um problema com as atividades que eram realizadas dentro do terreiro, retirando a sede da associação do espaço.  E, atualmente, as aulas de capoeira continuam na associação e quem leciona são ainda filhos de santo do Tombelazaze.

CFF: Por qual linha profissional pretende seguir?

Seguindo pela linha de criação que eu tive - como meu pai que é compositor-, tenho mais o dom de cantar e não de musicar e também tenho feeling por escrever e sempre que eu puder vou oferecer o recorte racial aos temas que abordo.  Hoje faço Comunicação Social com Habilitação em Publicidade e Propaganda na Unime em Lauro de Freitas e é meu atual instrumento de luta.

Você como uma mulher negra, que tem uma vivência produtiva em Salvador e em Camaçari; qual mensagem você deixa para o público feminino  neste mês que se comemora o Dia Internacional da Mulher?

A mulher branca, negra, seja ela crente ou do Candomblé. Ela não deve nunca se bastar. Ela tem que estudar, correr atrás.  Pois o papel dela e o fardo que carrega é muito mais pesado do que o do homem. Por mais que a gente vá pra rua, seja profissional, quando retornamos pra casa, voltamos a ser mãe, irmã, dona de casa e não deixamos de ser nunca.

 
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