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O CFF, apesar de veicular as ocorrências policiais e hospitalares da cidade, não faz questão por fatos dessa natureza
O CFF, apesar de veicular as ocorrências policiais e hospitalares da cidade, não faz questão por fatos dessa natureza

Corre que mataram um ali na Conexão. - Acabaram de matar um, perto da Casa do Trabalho: sabe alguma coisa? - Meteram bala num, na Avenida Conexão, agorinha. Manda lá. O telefone não parou um minuto sequer, inclusive depois, com a clássica pergunta: e aí, foi por quê? Claro que não corremos. Até por que, estávamos em momento de lazer e não nos pautamos – pelo menos não é nossa prioridade – nesse tipo de notícia. Estamos falando do assassinato de um homem na tarde deste sábado, 19, no 2 de Julho. E precisamos registrar que é de impressionar o tamanho gosto mórbido da turma.

O CFF, apesar de veicular as ocorrências policiais e hospitalares da cidade, não faz questão por fatos dessa natureza. Pelo menos não corremos atrás. Mesmo sendo notícia. Ache bom quem quiser. Nós não achamos. Por que entendemos que não agrega. Além dos entremeios que as cercam. Em suma, preferimos ocupar nossas equipes, com fatos relevantes. Sobre a violência, além de editoriais, falamos através das ocorrências registradas nos órgãos competentes. Quem nos lê, sabe, e deve se acostumar com isso. Ou acessar veículos especializados em notícias do gênero.

À baixo, matéria do Observatório da Imprensa sobre a morte do cinegrafista que cobria um fato policial, no Rio de Janeiro, e perdeu a vida tentando satisfazer os desejos mórbidos de certo público.

Perca um tempinho e leia. Principalmente jornalistas.

A necessidade e o risco da testemunha ocular
Sylvia Moretzsohn.

A notícia da morte do cinegrafista Gelson Domingos, na manhã de domingo (6/11), no tiroteio entre policiais e traficantes em Antares, na Zona Oeste do Rio, me trouxe imediatamente a lembrança do documentário “Abaixando a máquina – ética e dor no fotojornalismo carioca”, de Guillermo Planel e Renato de Paula. Revi o filme, as cenas de intenso tiroteio em torno do cemitério do Catumbi, fotógrafos correndo agachados protegidos pelo muro baixo. Outra cena de tiroteio num morro da Zona Norte, a sequência de fotos do traficante atirando, a bala passando rente à câmera. Os depoimentos dos fotógrafos: a gente gosta de ação, se não tiver ação não tem graça, temos um anjo da guarda bem legal porque as balas passam perto da gente e não nos atingem.

Quem disse que não?

Bem a propósito, Mauro Malin recordou casos anteriores, em artigo neste Observatório (“A guerra da audiência“): o fotógrafo da Reuters ferido na “retomada” do Alemão, a repórter da Band ferida ao pé do morro Dona Marta. Qualquer deles, qualquer outro que tenha escapado ileso, poderia ter inaugurado essa estatística há muito tempo.

Por isso, a morte do cinegrafista não deveria causar tanta surpresa. Surpresa é não haver mais casos de mortos e feridos nesse tipo de cobertura.

Mas agora, finalmente, temos um morto e a morte produz esse efeito de pausa para reflexão. O caso Tim Lopes, em 2002, foi um divisor de águas. O caso Gelson também será?

Contextos diferentes

Difícil dizer, porque o assassinato de Tim Lopes ocorreu em circunstâncias diversas, que poderiam ser evitadas caso os repórteres – e, talvez mais importante, seus chefes – refletissem melhor sobre o uso de câmeras escondidas ou sobre a tática de infiltração para obter informações. Desde a morte de Tim as empresas jornalísticas em geral estabeleceram novas regras para a entrada em áreas de risco, o que, no entanto, não impediu o jornal O Dia de enviar, em 2008, uma equipe de reportagem para morar, sob disfarce, na favela do Batam, para “revelar” o cotidiano daquela comunidade dominada por uma milícia. O resultado é conhecido por todos. Dois anos depois (revista piauí, edição de agosto de 2011), o fotógrafo Nilton Claudino, integrante da equipe torturada pelos milicianos, relata que a denúncia sobre a presença dos jornalistas disfarçados teria partido de dentro da redação (ver, neste OI, “Minha dor não sai no jornal“). Não parece ter havido reação à altura dessa barbaridade.

A morte de Gelson, entretanto, é diferente porque ocorreu durante uma atividade que faz parte da cobertura do cotidiano das ações policiais contra traficantes. No velório, os comentários dos colegas oscilavam entre a exaltação da “bravura” e da “coragem” do cinegrafista, os protestos contra a falta de proteção adequada e a sugestão de que, a partir de agora, ninguém mais acompanhasse operações policiais, limitando-se a cobertura ao rescaldo das incursões.

A importância de estar em campo

Seria o melhor dos mundos para o governo e a polícia, porque então o noticiário teria poucas chances de escapar à versão oficial. “Imagina o que não vai acontecer com as ações do Bope que não tenham a imprensa como testemunha”, diz Guillermo Planel, que atualmente trabalha num documentário sobre direitos humanos na América Latina e, na instalação da UPP no morro do São Carlos, em maio deste ano, filmou o momento em que um blindado da Marinha esmagava o carro de um morador.

Há certamente muito idealismo nessa referência à “imprensa”, mesmo porque esta imprensa noticiou o caso de acordo com a versão da polícia: o carro estaria colocado ali por traficantes, para conter a passagem das forças “pacificadoras”. Mas é certo que, sem a presença das câmeras, não haveria hipótese de denúncia. Neste caso específico, Planel foi o único a filmar o princípio da operação, entregou o vídeo às autoridades e agora o Estado terá de indenizar o morador.

A aliança entre mídia e sistema penal

Em seu já citado artigo, Mauro Malin defende a necessidade de treinar os jornalistas para cobrir os acontecimentos, não para participar deles a reboque da polícia e dos bandidos. Treinar para que tenham visão crítica, para que não aceitem as versões oficiais. Afirma ainda que é preciso questionar a legitimidade do sensacionalismo, da busca pela audiência acima de tudo.

Investir na visão crítica é investir na formação dos jornalistas – desde a universidade, mas também na promoção de cursos e debates regulares, voltados para a qualificação dos profissionais. Visão crítica implica o questionamento da tática de confronto para o combate ao tráfico, o conhecimento do papel histórico da polícia – portanto, a dúvida (para dizer o mínimo) sobre o significado das UPPs para a população que constitui as chamadas “classes perigosas” – e a percepção das ramificações das atividades criminalizadas, que, como deveria ser óbvio, não se resumem à figura do traficante e do policial corrupto.

Ocorre que há, historicamente, uma aliança entre a mídia hegemônica e a lógica do sistema penal – como demonstrou Nilo Batista em artigo publicado há quase dez anos – que a torna solidária às políticas de “lei e ordem” e do “combate ao crime” sem questionamentos.

Discurso monocórdio

Daí a monótona repetição do discurso oficial na instalação das UPPs: a “retomada” de territórios, como se o teleférico do Alemão, ali onde em uma das torres foram cinematograficamente hasteadas as bandeiras do Brasil e do estado do Rio de Janeiro, não fosse obra do governo federal, ou como se a Rocinha – onde também acaba de se repetir o ritual cívico do pavilhão nacional – não fosse há anos destino de um passeio turístico em que estrangeiros louros vermelhos de sol são conduzidos por jipes e se deslumbram com a maravilha da vista estonteante e do contraste entre a favela e os prédios luxuosos à beira-mar.

É só parte do script ao qual aderem os repórteres. Numa cena, afetam indignação diante do “luxo” dos chefes do tráfico, entretanto banal para a classe média endinheirada que habita as áreas mais valorizadas da Zona Sul e da Barra da Tijuca e incomparável diante das imagens do luxo verdadeiro das casas da elite volta e meia exibidas na capa dos suplementos de imóveis. Em outra cena, aparecem eufóricos anunciando a vitória do bem contra o mal e comemorando a prisão do mais recente inimigo público como “um dia histórico para o Rio de Janeiro”.

Obstáculos à crítica

Qualificar os jornalistas para uma cobertura adequada do crime exigiria a ruptura com a longa tradição conduzida por essa lógica maniqueísta. As dificuldades começam pela própria maneira segundo a qual o jornalismo se estrutura, independentemente de sua orientação ideológica, e estabelece sua relação com o senso comum – e aqui cabe apenas esta breve menção, porque se trata de uma questão complexa demais para os limites deste artigo. Outra dificuldade são os compromissos político-ideológicos de determinados meios de comunicação – no caso específico, como referiu Mauro Malin, “O Globo é o principal suporte midiático carioca da política de segurança pública” do governador, e não é preciso muito esforço analítico para se chegar a essa conclusão.

A propósito, é significativa a manchete desse jornal – “‘Estamos prontos para o que acontecer’, avisa Beltrame” – no sábado (12/11): o apelo claro ao confronto – afinal, se não tiver ação, não tem graça – é ao mesmo tempo uma tola excitação de expectativas, porque era muito óbvio que não haveria confronto algum, embora representantes da PM tenham entrado alegremente nesse circo midiático e usado a retórica bélica ao falarem em evitar “danos colaterais” na ocupação.

Nesse quadro, que chance teriam os repórteres de exercer sua visão crítica e fugir das versões oficiais?

Testemunhar, apesar de tudo

Resta saber como cobrir os acontecimentos sem ceder à lógica da espetacularização e, mais ainda, sem estar a reboque da polícia, quando esses acontecimentos são confrontos armados entre policiais e traficantes.
Nas redações, os jornalistas ironizam a recomendação das chefias para que “avaliem” a situação. “Avalia e vai”, costumam dizer, criticando implicitamente a transferência de responsabilidades e indicando que a tendência é acompanhar o concorrente.

Pode-se argumentar que a adoção da política de “pacificação” dos morros levaria a uma diminuição progressiva da exposição das equipes de reportagem ao risco de confrontos. Mas nada leva a crer na redução do investimento na espetacularização e na disseminação do discurso oficial de combate ao crime.

Além disso, não nos esqueçamos de que o mesmo governador e o mesmo secretário de Segurança que adotaram a política das UPPs são os que, anteriormente, investiam vigorosamente na política do enfrentamento. Não nos esqueçamos do famoso comentário do secretário de Segurança logo após a incursão policial na favela da Coreia, em Senador Camará, Zona Oeste do Rio, que resultou em vários mortos, dois deles alvejados do alto, por um helicóptero, enquanto tentavam fugir: “um tiro em Copacabana é uma coisa; um tiro na Coreia é outra”. Pois então: a polícia agora instala UPPs prioritariamente nas favelas do circuito olímpico e, para as outras – as que em geral não atraem a atenção da mídia –, mantém sua política de confronto armado.

No caso de Antares, pelo que foi noticiado, a imprensa acompanhou o comboio policial pensando que se tratava de uma operação na Rocinha. Não se sabe se teria adotado a mesma atitude caso estivesse informada do destino verdadeiro. Seja como for, o episódio só ganhou repercussão porque resultou na morte de um cinegrafista. Do contrário, o tiroteio e seu rol de mortos provavelmente se resumiriam a uma nota de rodapé.

Ainda assim, a presença do jornalista – especialmente daquele que lida com a imagem – continua a ser essencial. Se há limitações e desvirtuamentos no trabalho de reportagem, se há sérios obstáculos à divulgação de denúncias de violência, a ausência do testemunho eliminaria qualquer hipótese de veicular informações capazes de confrontar as versões adequadas ao poder.

[Sylvia Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)]

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