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Carlos Eduardo

Vereador Sérgio Nogueira (PSB)
Vereador Sérgio Nogueira (PSB)

Fé, estado, educação infantil e orientação sexual. Palavrinhas-chave que permearam discussões nos últimos dais devido a um posicionamento polêmico de um vereador de Dourados (MS). Sérgio Nogueira, do PSB da candidata a presidente Marina Silva, fez a proposta, em discurso na Câmara daquele município, de colocar os homossexuais "isolados da sociedade" em "uma ilha" deserta por "50 anos". Após a repercussão país a fora, o vereador "voltou atrás" e floreou seu discurso, através de nota, negando ser homofóbico.

Virou praxe no país. Um indivíduo derrapa em um discurso, defendendo uma pauta polêmica e mal resolvida política, ética ou socialmente, leva "porrada" nos veículos de comunicação e nas redes sociais da internet, e depois volta atrás, faz as vezes do arrependido, desentendido ou mal interpretado.

Homofobia é homofobia, racismo é racismo, crime é crime. E ponto. Um vereador, personalidade pública, que legisla por seu município e representa o povo em sua maioria, não pode ser segmentado em seu posicionamento enquanto edil. Em tense, na prática é o que menos vemos. O que existe é um supermercado de pseudo-ideologias, a maioria delas do "farinha pouca meu pirão primeiro", ou da lógica etnocêntrica dos livros de antropologia, do "meu grupo" ou "meu segmento" é o melhor e tudo deve girar em torno dele, para o bem dele e "se f..." o resto.

Parece que mentes de políticos como este vereador em questão, e de muitos outros, que representam (e aqui não é via de regra) o público evangélico, tenciona que políticas públicas, programas de governo e ações de governança devem seguir os ditames de suas doutrinas religiosas (ou pseudo-religiosas). E aqui não se defende se a homossexualidade é "boa" ou "ruim", mas que ela existe e precisa ser, se não aceita, discutida e respeitada.

"Não podemos passar a ideia de que o anormal é normal. Bota (sic) as pessoas que pensam assim numa ilha por 50 anos. Coloca essas pessoas numa ilha e depois de 50 anos volta para ver; não vai ter mais ninguém”... Por que isolar "pessoas que pensam assim"? O convívio harmônico entre os diferentes não seria uma das lógicas essenciais do cristianismo, já que o edil exaltou o "respeito ao ser cristão"? Não foi o próprio Cristo quem se aproximou daqueles que eram marginalizados por aquela sociedade segregacionista, intolerante e egoísta em que viveu no tempo em que esteve entre nós humanos?

Mesmo sendo Deus, Jesus não se misturou com toda a "corja" daquela sociedade? Visitou e andou com cobradores de impostos, prostitutas, adúlteras, doentes, impuros, pagãos...? Não os tratou bem, curou, ensinou...? Ou só vale os ensinamentos Dele que melhor nos apetece? "Ah, não, a família em primeiro lugar... Ah, não, homem e mulher é o certo... Ah, não, temos que viver como Cristo viveu..."! Ops, então, desavisados, viver como Cristo viveu não seria se desprender de discursos inflamados e preconceituosos, deixar de se preocupar com  a sexualidade de outrem e cuidar da sua própria vida, ser mais amável, justo, bondoso, perdoar, pregar a paz, etc, etc, etc?

O vereador tentou se justificar dizendo que sua crítica, na verdade, se referia ao programa didático que tenta, para ele, "desvirtuar as crianças"... Mas que na verdade prima, em sua origem, ensinar para as crianças a ser mais tolerantes com o diferente, aprenderem desde cedo que há na sociedade outros modos de viver, se relacionar, constituir família, e que elas precisam saber lidar com tais diferenças, para que, depois, quando adultas, na juventude, quando confrontadas com uma situação "fora dos padrões", não reagir como muitos, com violência, intolerância, fato que tem aumentado diuturnamente as estatísticas de homossexuais mortos, agredidos ou ofendidos nas ruas.

Seria o mesmo efeito de ensinar crianças brancas a não serem racistas, a não cometerem racismo contra negros. Pois, prezados leitores, como diz trecho da bela canção da banda de reggae Natiruts, "Quem planta preconceito?"... "crianças não nascem más, crianças não nascem racistas. Crianças não nascem más, aprendem o que a gente ensina"...

Para o vereador do PSB, “todos devemos ser contrários à homofobia, ou seja, à discriminação de pessoas por causa da orientação homossexual. Mas o Estado deve respeitar também a compreensão de fé das comunidades religiosas, de forma a não induzir este comportamento ao público infantil".

Há quem discorde, pois esse discurso soa controvertido. Segundo estudiosos da causa, ninguém "aprende" a ser homo ou heterossexual e, independentemente de religião, seja católico, budista, evangélico ou do candomblé, há homossexuais e, isto, em vez de ser tratado com irresponsabilidade, deveria ser muito mais discutido, sem preconceitos, intolerâncias ou panacéias, apenas com responsabilidade.

Fica aqui, como contraponto, a atitude do Papa Francisco: "O problema não é ter essa orientação (homossexual). Devemos ser irmãos. O problema é fazer lóbi por essa orientação, ou lóbis de pessoas invejosas, lóbis políticos, lóbis maçons, tantos lóbis. Esse é o pior problema". E mais: "Se uma pessoa é homossexual e procura Deus e a boa vontade divina, quem sou eu para julgá-la?". Fica a dica!

O autor é jornalista e repórter correspondente do Camaçari Fatos e Fotos na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA)

Carlos Eduardo Freitas, jornalista do CFF
Carlos Eduardo Freitas, jornalista do CFF

 

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