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Antonio Franco Nogueira

Sidclay Dias e Ana Paula
Sidclay Dias e Ana Paula

Tudo quanto vier á mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma. Ecl 9:10. Mas ele não crê (será?), que funcione assim, aqui falando do zelo de Deus pelo homem a quem criou. Mas não adianta: a quem o Criador escolhe para zelar, assim será feito ainda que n’Ele não se acredite.

Quem já me leu sabe que não dou dois passos, quer dizer, não escrevo dois textos, sem abordar em um deles que a existência de Deus é o que dá sentido a tudo e justifica a vida. Sou tetraplégico e, como tal, sentir dor (queimor) é o meu trivial. O que incomoda muito – por que isso é de dia à noite. E ao chegar naquele ambiente pela manhã, ao vê-lo na cadeira de rodas, eu meio que com vergonha n'alma por reclamar um pouco das minhas dores sabendo que estava do seu problema, e mesmo depois de lhe dar um abraço e, pra descontrair um pouco, brincar com nossa condição dizendo que éramos um mal feito e outro pregado errado –, ainda não havia notado o quanto a sua presença impactaria na minha vida, assim como serviria de exemplo tanto para mim quanto para alguns ali presentes. Que pena que não para todos.

Abraço trocado, segue a carruagem: conversa pra cima, conversa pra baixo, risos e gargalhadas, articulações, e celebrações, descontração total, o que manda a cartilha do lugar, e eu ali, observando tudo o que ocorria tanto com ele quanto à sua volta. Quando notei que a pessoa que o acompanhava era uma mulher linda. Mas o observava com discrição para não lhe causar constrangimentos. Quando, algum tempo depois, fui compelido a conversar, em particular, com a tal mulher, que pensei se tratar de sua esposa. Mas que não é. Ainda.

Já noite, um pouco antes da janta, já na conversa em reservado com ela, Ana Carolina, uma paulista de 33 anos, que vive em Aracajú há quatro anos, me emocionou ao me revelar que ela é apenas a namorada e que o conhecera havia penas seis meses. Mas, mesmo emocionado e surpreso com a revelação, segui firme no propósito de lhe dizer o que fui para dizer, que foi que agora ela não é mais inocente da carência dele sobre a presença dela. Onde, se desistisse, quem sabe haveria um preço a pagar. Mas se mantivesse a força não pagaria, mas receberia, certamente, um premio qual que medi-lo não será possível. E ela desabou. Então se confirmou: ela não o encontrara nem estava ali levada pelo acaso ainda que não tivesse, quem sabe, consciência desta situação.

No dia seguinte, com todos se encaminhando para o plantio dumas árvores que simbolizarão a representatividade, no ambiente, da importância de alguns eventos e pessoas, in-memoriam, peço que o ponham no meu carro, por que mais do que nunca - apesar de eu não saber, mas, de certo que havia Quem entendesse assim, a quem não se deve desobedecer – a conversa, também a sós, agora era com ele.

- Sid, você crê em Deus?

Balbuciando as palavras, com muita dificuldade, ele, de início, diz que não. Mas depois emenda:

- Não do jeito como você crê.

- Você responsabiliza a alguém (Deus, insisto) ou reclama da sua patologia?

- Não.

Responde. O que me surpreende diante da resposta mitigada sobre acreditar ou não em Deus, que havia me dado – o que indicaria que se tratava dum homem de consciência indolente, logo que não medira uma acusação sobre o seu sofrer. Mas, ao ver que não era o caso, provoquei:

- Sabe, Sid, muitos não crêem, mas o Deus que eu creio e que você mesmo não crendo n’Ele, tem zelando por você, vendo a humanidade se acabando da carne à alma mandou o Filho d’Ele em nosso favor e o que foi que nós fizemos com o corpo de Jesus antes de matá-lo? Dilaceramos. Rasgamos sua pele, derramamos seu sangue, e lhe impusemos um sofrimento sem medida.

Digo, olhando pra ele, quando noto uma reação favorável à conversa. Então continuo:

- Depois do que se fez com o corpo de Jesus, seu filho, Sid, o que mais vai importar para Aquele que o enviou, sobre o sofrimento de qualquer outro corpo, além da evolução de cada alma? Nada, amigo. Mas Ele ainda assim nos manda consolo.

Exponho. E usando analogicamente o ciclo da água, que sobe e desce, se renovando, falo que com nossa alma acontece o mesmo e que nosso corpo padece para evolução de cada delas, que nunca morrerão. Cabendo o melhor ou o pior a cada uma a depender de cada dono. Quando noto uma umidade em seus olhos. E, vibrando por dentro, continuo:

- Sid, quer prova maior de que Deus, mesmo você não crendo, zela por você, do quê Ana Carolina?

E apontando sua namorada, que estava à certa distancia, que mesmo o encontrando só agora, veio de São Paulo para Aracajú há exatamente quatro anos, os mesmos quatro anos do diagnóstico da sua doença, lhe recordo que ela não é sem uma orelha, uma perna, ou braço; que não é uma mulher desprovida de beleza ao extremo, sem valores morais, que se aproximaria dele por precisar dum teto por ser rejeitada pelo mundo, mas uma mulher fisicamente perfeita, jovem, com uma família, que trabalha, e o melhor, que ouviu a voz de Deus para que viesse ao seu encontro.

E, ao ver a umidade abrir caminho para lágrimas, conclui que não, ele não estava seguro de que o Criador dos céus, do ar, da terra, e do mar, assim como tudo o que neles há, da exata forma como eu creio, não existe. Pois ali, naquele exato momento, Deus havia soprado aos seus ouvidos e afagado o seu peito. Então completei:

- Agora, sabe o porquê disso tudo? Por que você também está com sua missão. E cumprindo as etapas exatamente como Ele quer. Que é, assim como está fazendo comigo aqui, passar a mensagem de que é dele o Poder, que Ele é o Deus dos propósitos. E sabe o que está embutido nisto, amigo, sua determinação de não medir esforços nem parar diante de barreiras para fazer o que tem vontade, dentro das suas condições, quando alcança um bocado que reclama e cede diante de coisas ínfimas.

E para justificar a razão do presente, Ana Carolina, fechei com outra analogia – esta minha - dizendo que se um pai manda dois filhos fazer um mandado, e que se dos dois um bate o pé resmunga e não vai mas o outro cumpre muito bem a incumbência, e ao comprar dois calçados para os filhos, ao perceber que um é melhor que o outro - o que ele de pronto entendeu - o pai jamais deixaria de dar o melhor para quem o obedeceu.

E dizendo que nem eu nem ele, naquele exato momento, não estávamos naquele lugar à toa, e que, quiçá, não nos encontramos por acaso mesmo que só agora, liguei o carro e fomos ao encontro do grupo.

E, queira Deus, que a semente que creio tenha pousado sobre o jardim da sua consciência naquela conversa venha a germinar e ele venha a cumprir alegre, enquanto viaja por onde quer – fazendo o que gosta, e dentro do seu possível, sua missão. Por que, até o dia do juízo, será exatamente como diz o versículo que, não à toa, abre o texto: não haverá outra oportunidade.

Sid, nobre leitor/a, que também atende por Sidclay Dias, e que perdeu a mãe há pouco mais de um ano, para a mesma doença, é um biólogo de 36 anos, sergipano, que sofre de ataxia espinocerebelar tipo 3, ou doença de Machado-Joseph, uma doença degenerativa, que mesmo nesses quatro anos do diagnostico tendo lhe posto numa cadeira-de-rodas e lhe tirado a capacidade de falar normalmente, ainda, e pelo visto jamais irá, não lhe tirou a vontade de viver enquanto, mesmo que até ali não o soubesse, faz aquilo que lhe manda o Pai Celestial.

Valeu Sid...

Antonio Franco Nogueira

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Antonio Franco Nogueira, diretor do Camaçari Fatos e Fotos
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