Galeria de Fotos

Não perca!!

Antonio Franco Nogueira

Estávamos no meio do expediente. Continuei minha labuta, mas aquela conversa não me saia da cabeça (Foto - Franco Oliveira)
Estávamos no meio do expediente. Continuei minha labuta, mas aquela conversa não me saia da cabeça (Foto - Franco Oliveira)

(Publicação autorizada)

Em casa, como sempre com demandas empilhadas quase alcançando o pé direito da casa (na verdade eu nunca consegui entender muito bem esse negócio de casa ter pé, e um só, e o direito – e ainda há quem me ache uma fera da construção civil – minha contadora?), com matérias pra revisar, escrever, editar, determinar, repórter pra dispensar, contratar, peão pra demitir, admitir, atender encarregado cheio de reivindicações, caminhão pra consertar, designar, resolver problema de amigos, família, parentes, de casa, explicar ao mundo porque no dia anterior não atendi ao celular nem retornei, e, pra variar, na cadeira-de-rodas suando feito um cuscuz e cheio de dor/queimor que é o trivial diário dos tetraplégicos – e ainda há quem pense que aleijado vive a base de papa na boca e paparico.

Retado, meio que querendo mandar tudo às favas naquela hora e ir pro meu quarto curtir sozinho minhas dores, meus queimores, daí toca o fixo:

- Franco...

- Como está, amigo?

- Bem. Quem é? Pastor Henrique?

- Sim!

- Está aqui em Salvador?

- Não. Estou em Itabuna! Sabe que nossa amiga está doente?

- Quem, Raquel?

- Sim. Acho que vai pra São Paulo fazer uns exames. É algo na cabeça.

- Vixe pastor. Algo muito sério?

- Ligue pra ela.

- Tá bem, vou ligar.

Estávamos no meio do expediente. Continuei minha labuta, mas aquela conversa não me saia da cabeça. Raquel havia sido minha assistente em Ilhéus, antes do acidente que me parou os movimentos das pernas e mãos. Mas nos tornamos bons amigos e ela vem sempre à minha casa e eu vou à dela. Isso há 14 anos.

Em dado momento me veio à mente uma das dela: sempre muito risonha – e bota risonha nisso - onde estávamos em três - a outra pessoa era minha esposa -, e a assanhada, ao passarmos por Jauá, parando para pedir uma informação a uma passante, ela olha pra mulher e solta – tipo que mandando mesmo: fia, tira uma foto da gente aqui. E a senhora, de meia-idade, ao posicionar a máquina, meio sem jeito, recebe o disparo: era só o que me faltava: tu não sabe tirar foto não é, criatura? Nessa posição já to vendo você cortar minha orelha. E desatou numa gargalhada que chamou a atenção até de quem passava de carro. – Ri sozinho aqui, agora, só em lembrar da cena.

O que de ruim pode acontecer a uma pessoa dessas? E segui minha tarde. - De noite eu ligo, que pra falar com Raquel é preciso tempo. Pensei.

Uma suadeira daqui, uma dor dalí, um queimor de acolá como prato principal; um estresse de sobremesa, o dia passa a noite entra. São já quase onze da noite, quando subo na cama, apanho o telefone e ligo:

- Paudebreu? (A chamo assim, desde sempre)

- É tu gonorante? (Ela chama assim até ao prefeito)

- Tava dormindo?

- Ainda não.

- O quê que você tem?

- Pastor Henrique que te ligou, não  foi?

- Foi. E o que houve, que você vai à São Paulo?

(Silêncio – ao fundo uma tentativa de controle das emoções - com voz comprometida, ela retorna)

- O que foi que ele te disse?

- Nada. Mas afinal, é algo muito sério minha amiga?

(Do outro lado, choro em alto e péssimo som)

- Raquel, vai dar tudo certo. Seja o que for você vai superar. Use sua alegria contagiante pra manter na mesma sintonia suas células. As nossas células acompanham o nosso estado de espírito. E isso será fundamental em qualquer que seja o tratamento que você vá fazer. Não se esqueça disso.

- Meus olhos estão estufando. Era um, agora estão os dois. Andei em uns vinte médicos, e eles sem me dizer nada, até que uma amiga me mandou em outro médico, que me disse que meu problema está na cara. E perguntou se meus amigos não tinham comentado nada. E eu disse que não.

- E meu amigo, e as crianças (são todos evangélicos), como estão? As meninas sabem? (ela tem três filhas, duas já adolescentes)

- Ele está pior do que eu: vive pelos cantos, amuado, triste. E as meninas a vida é orando. A igreja toda está em oração.

- Raquel, meu coração sentiu um refrigério aqui: a igreja ora, e Deus recebe a oração. Mas olha só o que vou te dizer: sabe por que você vai sair bem dessa? Por que Deus não resiste ao pedido duma criança. E você tem pedindo por você, esses três anjinhos aí.

E ela, APAIXONADA pelas filhas, que é, desabou.

Recomposta, pedindo que eu escutasse, chamou a filha caçula, e pediu que fizesse uma oração por ela. Ao que a criança perguntou:

- O que foi mamãe? A senhora está com dor de cabeça?

E sem esperar a resposta, iniciou a oração:

- Senhor meu Deus, cuida da minha mãe. Ela não sabe o que está se passando com ela, mas o senhor sabe, pois o senhor é o Deus de todas as coisas. E eu sei que posso confiar. Em nome de Jesus. Amém.

De cá, quem agora DESABOU foi eu. Não pode ser uma coisa carnal simples. A menina tem apenas seis anos. E fala como um adulto. E não um comum. Mas um adulto experiente na matéria.

E chega. O resto da conversa é por demais doloroso, e você não leria sem que machuque devera demais seu coração. – Ela tem um tumor no cérebro. Com suspeitas de serem dois.

E está resignada para a possibilidade de está sendo usada como um propósito divino – convicta de que se Jesus teve a carne tão dilacerada para cumprir um propósito, qual outra abaixo dele pode importar? Mas também esperançosa de se tratar dum caso de teste espiritual a ela, ou aos que a rodeiam, sem necessariamente ter que ser sacrifícada. Falando até do incômodo stand by que terá que dar no seu mais novo projeto. Que nada mais é, que uma entidade de assistência social voltada a assistir não a um grupo de pessoas, mas à toda comunidade ilheense. O que dispensa mais comentários.

Agora, imagine a cena: ora chorava diante do drama que está vivendo, ora gargalhava (sua característica mais comum) ao citar situações do seu cotidiano em que contava, ou fazia piada da situação com os amigos. E eu de cá, todo envergonhado por ter passado a tarde xiando com um queimorzinho de nada...

Esse foi, sem duvida alguma, o texto mais doloroso de escrever, e publicar, de toda a minha vida. Mas - antes de querer lhe chamar a atenção para a dor que pensa que tem e por isso até blasfema contra Deus, e sugerir que tome isto como exemplo – precisava, sabedor que sou da força dos clamores ainda que creia que o Criador não resiste ao apelo dos inocentes, lhe pedir que entre na corrente de oração, com aquela três crianças, que sofrem com o drama da mãe.

Agora ore!

(pedido encarecido à todos os demais veículos de comunicação, do Brasil, e do mundo, que propague o apelo)

 

Camaçari Fatos e Fotos LTDA
Contato: (71) 3621-4310 | redacao@camacarifatosefotos.com.br, comercial@camacarifatosefotos.com.br
www.camacarifatosefotos.com.br